Criar filhos... Um eterno gerúndio...
- Guilherme Romaguera
- 16 de set.
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de out.
Criar filhos é um dos maiores desafios da vida — e, junto com esse desafio, vêm muitas inseguranças, dúvidas e culpas. Sempre há aquele pensamento: “se eu fizesse de tal forma, talvez fosse melhor”.

Mas é importante lembrar que a parentalidade não se conjuga no passado. Ela só existe no presente contínuo: é movimento, é constância, é sempre no gerúndio — estou aprendendo, estou cuidando, estou tentando (por mais que "doa" nossos ouvidos...rs). E sem ponto final, somente com as reticências de uma ação que estará SEMPRE em andamento...
Quando ficamos presos ao “se eu fizesse”, estamos, sem perceber, utilizando o pretérito imperfeito. E talvez essa seja a maior verdade sobre ser pai ou mãe: todos nós somos imperfeitos! E educar filhos é um trabalho imperfeito por natureza... Não há como acertar sempre... E "não acertar" não significa falhar, mas sim não saber, fazer a melhor escolha possível no momento e se colocar no caminho humano de aprender junto com eles.
Não existe manual para criar filhos
Vivemos em uma era de excesso de informações.
Livros, artigos, redes sociais e especialistas oferecem inúmeros métodos e fórmulas de como criar crianças “da forma certa”. Mas a realidade é que não existe cartilha universal para formar um ser humano. Cada criança é um indivíduo — indivisível e único.
O que se aplica para um filho pode não se aplicar para o outro. O que funciona em uma casa pode não funcionar em outra. Isso não significa incompetência, mas a confirmação de que criamos uma pessoa nova, com desejos, vivências e interpretações próprias.
A criança não é um “vir a ser”, ela JÁ É!
Muitas vezes pensamos na infância como um ensaio para a vida adulta, como se a criança fosse apenas um “vir a ser”. Mas a verdade é que ela já é!
Já tem subjetividade, já sente o mundo de forma única, já interpreta o que vive a partir da própria sensibilidade.
O papel dos pais, portanto, não é moldar, mas direcionar. Não é apagar o que há de singular e próprio da criança, mas ajudá-la a viver bem em sociedade e, acima de tudo, a desenvolver uma relação saudável e respeitosa consigo mesma. Desde cedo ouvimos que o ciclo da vida é nascer, crescer, reproduzir e morrer. Mas, quando chegamos à etapa da reprodução, muitas vezes levamos o termo ao pé da letra: acreditamos que criar filhos é uma segunda chance de nos produzir, de refazer a nossa história. Os filhos, no entanto, não são uma continuação linear de nós mesmos. Não estamos nos “re-produzindo”. Estamos criando alguém novo, que precisa ser acompanhado com flexibilidade, liberdade e respeito à sua própria individualidade.

Para que isso aconteça, os pais precisam ter em mente que a criança não é uma segunda (ou terceira, ou quarta, ou quinta.....) possibilidade de autorrealização. Ela não é um recipiente que os pais possam depositar os próprios desejos e direcioná-la para que realize por eles. A criança não é um feixe de projeções parentais, ela é (e tem o TOTAL DIREITO de ser) quem ela desejar ser. Nossa função é fazer com que ela cumpra isso dentro de regras, dos valores morais e éticos da nossa sociedade.
Presença não é apenas física ou geográfica
Outro ponto fundamental da parentalidade é entender que estar presente não significa apenas estar no mesmo ambiente físico.
Uma mãe ou um pai podem estar em casa todos os dias e, ainda assim, estarem ausentes emocionalmente. Da mesma forma, um pai ou uma mãe que passam muito tempo trabalhando podem, em seus momentos disponíveis, oferecer uma presença afetiva e emocional bastante significativas.
Estar presente é olhar nos olhos; escutar de verdade; acolher sentimentos; respeitar a individualidade da criança; demonstrar interesse pelo que ela vive e sente; se colocar no mesmo patamar de estar vivendo (no gerúndio mesmo) algo novo; não é apenas olhar para a criança, é ENXERGÁ-LA! Com os olhos da alma...
Quando as palavras calam...
Os filhos aprendem muito pelo que observam, não somente pelo que escutam. Isso significa que o exemplo cotidiano é uma poderosa ferramenta educativa.
Quando um pai ou uma mãe demonstram respeito pelos outros; lidam com frustrações sem violência; cumprem compromissos; cuidam da própria saúde mental; dão valor às relações de amizade e demonstram afeto; eles estão ensinando — sem precisar de palavras — como se vive em sociedade, como se exercita o respeito pelo outro e pelo ambiente, entre diversas outras coisas.
A parentalidade, portanto, exige também uma postura ética e social. Não se trata de perfeição, mas de coerência: viver aquilo que se deseja transmitir.
A parentalidade como exercício humano
A parentalidade é, no fundo, um exercício de humildade: aceitar que não há perfeição, que haverá erros, que haverá momentos de culpa. Mas é também um exercício de amor: seguir tentando, escutando, direcionando, estando presente — no corpo, no afeto e na conjugação verbal correta.

Mais do que criar um filho ideal, trata-se de cuidar de uma relação viva, que envolve duas subjetividades: a dos pais e a da criança. E, como toda relação, ela se constrói dia após dia, no gerúndio da vida.
🌿 Ser pai ou mãe é poder construir... E é saber que esse texto também não tem a pretensão de ensinar, nem de ser um manual porque na relação construída entre vocês e seus filhos, a dinâmica existente é única, singular e perfeita em suas imperfeições...
👉 Gostaria de conversar mais sobre as culpas e inseguranças da parentalidade em um espaço de escuta sem julgamentos?



